Cartório e sua história

1º Cartório de Notas e Protesto de Maceió: há séculos registrando a história

 

Celso Pontes de Miranda, tabelião do 1º Cartório de Notas e Protesto de Maceió

Celso Pontes de Miranda, tabelião do 1º Cartório de Notas e Protesto de Maceió

A movimentação é intensa. A todo momento chegam dezenas de pessoas para registrar algum fato importante ou documento. Desde o século XIX, o 1º Cartório de Notas e Protesto de Maceió vem contribuindo para o registro da história da Capital alagoana. A unidade cartorária, situada no centro da cidade, no também histórico Edifício Breda, guarda preciosidades da vida do Estado, registros de séculos passados que ajudam a contar a história de um povo.

É com o orgulho que Celso Pontes de Miranda, tabelião da unidade cartorária, desce as escadas, para a entrevista, carregando um dos primeiros livros de registro de Alagoas. Ao abrir o documento, de páginas já amarelas, mas bem conservado, são descobertos fatos e curiosidades de uma época que só era conhecida nas aulas de história. Celso mostra registro de compra e de libertação de escravos, hipotecas e certidões do século XIX. Para ele, que há 51 anos é responsável por esse acervo e por toda atividade da unidade cartorária, poder conservar esses documentos é motivo de grande satisfação.

“Assumi esse cartório em 1962. Em uma arrumação, encontrei esses livros antigos no arquivo do cartório. Guardo-os com o maior cuidado, para que não se deteriorem e para que possam ficar para a posteridade. Doei um desses livros para o Instituto Histórico porque acredito que eles fazem parte da história de Alagoas, e lá eles podem disponibilizar a outras pessoas para pesquisa”, afirma.

 

Registrando a história

Celso não sabe precisar a data de fundação do cartório, mas de acordo com os documentos, tudo indica que ele foi instituído no início do século XIX, ainda na época da escravidão. “Não sei afirmar qual o ano em que o 1º Cartório foi fundado, mas pesquisando nos livros mais antigos que encontramos aqui, descobrimos que os registros são do início do século XIX, na época em que a liberdade aos escravos estava começando a ser concedida. Muitos dos registros que encontramos são de libertação de escravos. Isso mostra dois lados da história de Alagoas: a triste posição dos negros, que eram realmente tidos como bens, e a preocupação que já havia na época em registrar qualquer transação que fosse feita”, destaca.

Como em muitos cartórios , Celso herdou do pai o ofício de tabelião. Ele conta que a rotina de trabalho que exerce há mais de 50 anos, fez parte da sua vida desde a infância. “Meu pai assumiu esse cartório em 1936, e sempre convivi com tudo isso aqui. Nas férias, eu e meu irmão íamos para o cartório para ajudá-lo. Comecei mesmo como interino, e já estava me preparando para fazer o concurso, quando, em 1962, foi lançada uma portaria que tornava titular as pessoas que estavam há mais de cinco anos interinas nos cartórios. A partir daí, comecei a responder pela titularidade do cartório”, explica.

A história da unidade cartorária também se confunde com a história da sua vida. Há 24 anos o endereço do 1º Cartório de Notas e Protesto de Maceió é no Edifício Breda, e a data dessa mudança representa, também, outra mudança em sua vida. “Lembro muito bem a data que mudamos para cá, foi no dia 13 de julho de 1989, pois era aniversário de casamento. E por conta dessa mudança, levei uma bronca da minha mulher, porque me atrasei para o almoço”, conta Celso.

 

Carreira

Na mesma época em que já ajudava o pai nas atividades do cartório, Celso pensava em estudar Engenharia, e pretendia seguir a carreira de engenheiro, até que uma prova o fez mudar de opinião. “Eu achava que queria ser engenheiro, era bom com números. Mas teve uma prova que o professor passou que eu não consegui resolver a questão. No final da aula, perguntei a um amigo como era a resolução daquela questão, e quando ele começou a me explicar, percebi que era preciso ter na cabeça todos os teoremas. Aí resolvi seguir no cartório mesmo”, expõe o tabelião, afirmando que não se arrependeu da decisão.

“Gosto muito do que faço. Sinto uma enorme satisfação quando resolvo o problema de uma pessoa. Fico feliz quando alguém sai daqui mais feliz de que quando entrou. Aí percebo que fiz a escolha certa”, afirma.

 

Responsabilidade

Procura por serviços da unidade cartorária é intensa

Procura por serviços da unidade cartorária é intensa

Celso fala que todos os dias chega cedo e é sempre o último a sair. Para ele, o maior compromisso do cartório é servir a população. “Há mais de 50 anos tenho a mesma rotina, chego cedo para iniciar as atividades e sou o último a ir embora. Acredito que a minha obrigação, e de todos aqui, é esclarecer e resolver o problema, principalmente das pessoas mais humildes, que não tem acesso a advogados. Às vezes, o problema não é nem de competência nossa, mas instruímos a pessoa, explicamos o que deve ser feito para resolver”, ressalta.

Essa responsabilidade motiva a capacitação dos funcionários. A demanda em busca dos serviços da unidade cartorária é grande, e entre os mais solicitados estão o reconhecimento de firma e a autenticação de documentos. O tabelião destaca que todos na unidade cartorária estão sempre em constante atualização. “Duas funcionárias vão agora fazer um curso de pós-graduação. Acredito que é fundamental a capacitação. Pessoas mais capacitadas atendem melhor os clientes e prestam um serviço de melhor qualidade”, fala o tabelião, que também não economiza quando o assunto é manter o cartório em atividade: “O cartório não pode parar. Atendemos centenas de pessoas aqui todos os dias. Por isso, instalei um gerador para garantir que nosso trabalho continue mesmo quando faltar energia”, afirma.

E quando perguntado sobre o que o motiva na carreira de tabelião, a resposta é rápida: “O mais importante para mim é servir, servir a população e, principalmente, os mais necessitados. Meu papel aqui é explicar, ajudar e resolver, sempre que possível, os problemas das pessoas que nos procuram”.